Acho de uma imensa responsabilidade ser porta-voz, comunicador, intérprete. Por vezes comparo o papel de um jornalista com o de um sentenciador ou a de salvador, pela missão de conduzir a mensagem e informação de maneira útil e construtiva.

Quando comecei a escrever, ainda recém-formada, como jornalista de moda do extinto Moda Brasil, tinha a preocupação em tentar entender o processo peculiar de cada marca, a sua evolução e construção de marca e produto durante sucessivas coleções, para não cometer nenhuma “infração” ou julgamento injusto e descabido. O Moda Brasil – sob comando de Carol Garcia e Katia Castilho –  tinha me dado um papel que eu já considerava, sim, muito importante. Nessa época, eu era uma das 3 mais novas jornalistas cariocas cobrindo semanas de moda e, para quem não está conseguindo pensar na data, na época não existiam ainda os blogs de moda, por exemplo. Toda essa confiança me fazia sentir orgulhosa e ao mesmo tempo tomada de grande responsabilidade para falar sobre o trabalho de outros, com muito mais anos de estrada do que eu.

Hoje, à frente do marketing de uma empresa de moda, vejo o que os backstages me acrescentaram. E foi muito. Tenho enorme respeito por todos que têm coragem de assumir seus desejos e ousadia – e amor – para tirar inspiração de dentro da alma para construir produtos que chegam até a gente costurados, embalados, prontos para virarem agentes comunicadores. Adimiro quem tem a coragem de assumir um business no Brasil, onde tudo é muito caro e difícil.

Depois de 6 meses vivendo uma coleção, vendo cada pedaço dela sendo construído, os tecidos chegando, cada tingimento e beneficiamento sendo feito – e dando errado e depois dando certo e depois gerando dúvidas -, até que a roupa assume vida própria e praticamente sai do cabide para escolher sua modelo, sinto enorme orgulho e sensação de dever cumprido quando vejo uma coleção entrar na passarela. E, depois de 13 anos trabalhando com moda, estou onde sempre quis estar e nem sabia quando comecei. Fazer parte de uma equipe que pensa na no tema como uma história (afinal, ele reflete desejos e pensamentos de uma época) e no desenvolvimento dele como mensagem, é gratificiante demais. Para mim, a roupa sempre foi, acima de tudo, um meio de comunicação.

Pelo lado profissional e pessoal, fica a vontade de se ter cada vez mais cuidado: com os outros, com o que ouvimos, sentimos e vemos. E a certeza de que só se deve apostar no que a gente acredita. Tudo isso faz parte de um pensamento que tenho há tempos e nunca tinha posto no papel. E ele abre aqui os meus highlights do que vi essa semana no Fashion Rio.

Que venha o inverno!

Nica Kessler, Andrea Marques, Auslander - ADORO: o clima 70's nas estampas miúdas, a sobriedade espertamente feminina nos tops derivados de camisaria (decotes em V e braços cobertos) + cumprimentos refinados + couro molenga + cores sóbrias misturadas

 

Patachou e Printing : adoro esses dois looks com texturas

Os cinzas: refinado em Filhas de Gaia e nômade na Redley

Cantão e Espaço Fashion : fluidez e leveza em peças prontas para ganhar as ruas

Recortes da Redley, botas estampadas da Cantão e o coturno-sapatilha da New Order (o acessório must have da temporada)