Já haviam me dito que uma vez que eu conhecesse museus fora do Brasil ia ficar passada. E feliz. E triste. E impressionada. Se o Malba já tinha me causado uma certa euforia, visitar outros lugares incríveis como Louvre, Pergamon e Victoria&Albert realmente me fez cair o queixo. Um misto de felicidade por estar perto daquilo tudo, dúvidas sobre o direito de se retirar (roubar?) obras de seus lugares de origem e, claro, uma sensação incrível de estar ali e poder entender a história (e eu mesma) um pouco mais de perto, com mais propriedade, com capacidade de entendimento que se eu fosse adolescente, não teria. Sentimentos à flor da pele, vontade de engolir todas aquelas referências seculares e um frio na boca do estômago, meio parecido com aquele que a gente sente quando está apaixonada e a nossa paixão vem andando na nossa direção. Não é exagero, foi isso que senti. Me apaixonei várias e várias e várias vezes nessa minha primeira viagem para a Europa, em novembro do ano passado.

Já a tristeza a que me refiro acima é a que bate quando cai a ficha de que estamos culturalmente muito, muito atrasados em terra brasilis. Sim, eu sei: somos um país novo, temos muito o que progredir, muitos dos nossos ainda são analfabetos (mais de 16 milhões), um dia chegamos lá. Enfim, juro que não sei mais se acredito que chegaremos nesse lá que eu espero enquanto eu estiver viva.

Bom, essa volta toda foi para dizer que a chegada da Casa Daros aqui no Rio me (re)acendeu uma pontinha de otimismo. O espaço é realmente incrível, desde a arquitetura em si – a casa de 1886, patrimônio histórico, foi reconstruída em um trabalho de 6 anos – , até a incrível e forte expo inaugural: Cantos Cuentos Colombianos.

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A mostra de arte contemporânea trata sobre pontos de vista sobre a Colômbia pelo olhar afiado de vários artistas. Em todas as obras, fica claro o teor político e social.

A sala mais comentada é a de Nadín Ospina, que ironicamente utiliza como referência as famosas cerâmicas colombianas ao recriá-las – pelas mãos de hábeis especialistas – como ícones populares e americanos, como Bart Simpson, Minnie e Pato Donald. Uma observação sobre a hibridização da cultura latino-americana.

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Um dos trabalhos que mais me tocou foi o de Doris Salcedo, onde sobreposições/junções de objetos e materiais representam violência, incapacidade de uso, deslocamento, angústia.

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Mexendo ao extremo com o sensorial, José Alejandro Restrepo usa em “Musa Paradisíaca” (nome botânico da banana), vídeo, música e bananas – de verdade – para falar dos contrastes entre natureza X opressão, como mostram as gravações sobre massacres ocorridos nas últimas décadas.

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María Fernanda Cardoso usa insetos de verdade – lagartixas, moscas, grilos – e nos repele e seduz ao mesmo tempo, ao transformá-los em ornamentos.

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Juan Manuel Echavarría desenha plantas exóticas e delicadas, que parecem extraídas de enciclopédias botânicas. Mas, as mesmas são… ossos humanos.

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A mostra foi apresentada inicialmente em Zurique, Suíça, em duas partes: a primeira, de outubro de 2004 a janeiro de 2005; e a segunda, de janeiro a abril de 2005, tendo sido a maior mostra de arte colombiana contemporânea já realizada na Europa. Não tem como passar imune.

Para visitar. E revisitar.