Arquivos para categoria: fotos & imagens

“- Eu acho você puro sentimento.
– Sério? Eu acho que abraço pouco, falo pouco… fiquei pensando que não sei o que você quis dizer com isso…estranho.
– Acho que você age primeiro com o coração, é seu primeiro impulso. É isso.”

Tive esse diálogo há pouco tempo com um amigo de décadas. Somos brasileiros, latinos, povo acostumado a falar alto, a se meter na conversa da mesa do lado – e opinar – e a receber e dar beijos à lá vonté por aí nas bochechas (e bocas, acontece, né?) de quem mal sabemos o nome. Mas, quando você não é esse brasileiro típico, não é dado a tantas aberturas e extroversões de toques, se assusta com tantas mãos e muitas vezes julgamentos sobre não ser emocional. Para muitos, o afeto tem que ser físico o tempo todo, tem que ser sôfrego, tem que ser em excesso mesmo, tem que ser explícito, porn.  Senão…você é racional. Levanta a mão quem já ouviu isso! –  eu já ouvi muitas vezes e sendo 50% japa e 50% brasileira, logo arranjam uma justificativa no lado nipônico para a seriedade (confundida quase sempre com insensibilidade).

As maiores demonstrações de carinho que já tive foram nada excessivas, mas extremamente sensíveis. Um beijo no rosto enquanto eu estava deitada, sem perceber que a pessoa vinha. Um “<3” na timeline, no meio do dia, de surpresa. Um “trouxe pra você, porque achei a sua cara”. Um elogio no meio de uma frase cotidiana. Um “guardei um pedaço pra você”. Um whats app dizendo “tá melhor?”. Brilhos eternos de mentes com lembranças.

Mas, se eu tiver que escolher um gesto para externar afeto, escolho o universal, claro: o beijo. Fato que ele não precisa de legendas, se aplica a todas as relações e tem o efeito de elevar o humor e o amor. O Kiss Me Please Project fala disso e traz como protagonista Kanna, a filha do fotógrafo Nagano Toyokazu (olha aí, japa, tá vendo?) espalhando kisses por aí.

Kiss me 2_Toyokazu

Kiss me 3_Toyokazu

Kiss Me_toyokazu

Kiss me_4

O projeto traduz isso tudo: como o amor pode ser transmitido e compartilhado entre as pessoas, pelo mundo, de maneira simples. Sem excesso, mas com humor.

“Whether it is a fight between a couple, countries, and people, it is quite possible that everything can be solved with a simple kiss. With this in mind, my second daughter is expressing this idea by kissing different people and things. This project is to show that love can be spread and shared among people. We hope that it would bring peace to the world”, disse ele para o My Modern Met.

PS: Já falei de Toyokazu antes aqui, quando mostrei outras fotos amazing dele.

Viajar é encontrar com a gente mesmo. Voltei cheia de clichês-delícia, com a obviedade batendo na porta. Voltei feliz, cada vez mais certa de que o simples é o melhor de tudo.

IMG_4573

A viagem começou com a segunda ida a Berlin e, com ela, a certeza de que essa cidade é das que eu quero visitar sempre que puder. Refiz alguns programas, como a visita ao Pergamon, que faz meu queixo cair logo na entrada com o Altar de Pérgamo, o Market Gate of Miletus e as paredes da Babilônia, naquele azul que não achamos na cartela do dia a dia. Também fui de novo dar um oi para Nefertiti, embasbacante (não pode tirar foto, tente imaginar e aí, dobre a expectativa. É isso) e ver os pergaminhos, sarcófagos e pedaços de pirâmides e lindos hieróglifos no Neues.

IMG_4657

o market gate, de 2 AD, com 30m de largura e 16m de altura, é de impressionar.

imagina morar num lugar com um portal com desenhos assim? imagino o quanto era exótico se deparar com essas cores e desenhos tão diferentes...

imagina morar num lugar com um portal com desenhos assim? imagino o quanto era exótico se deparar com essas cores e desenhos tão diferentes…

IMG_4645

IMG_4653
Andar por Berlin é incrível. Mesmo. A cidade está sempre em reconstrução e ao mesmo tempo que você tem esse lado histórico forte e preservado em museus, tem o contato com o lado contemporâneo nas galerias e com a street art a cada esquina. Tem prédio ainda da época da guerra, tem prédio com ares franceses, tem prédio imponente, tem prédio simples e tem outros que certamente são squats.

IMG_4886

cenário mais comum: posters colados e descolados nos muros e portas

cenário mais comum: posters colados e descolados nos muros e portas

sente quantos layers de posters. <3

sente quantos layers de posters. ❤

IMG_4625

IMG_4761

O metrô funciona 24 horas e adoro os azulejos…

IMG_4602

IMG_4603

Dessa vez, fui a Kreuberg, bairro boêmio, com uma mistura interessante de pessoas, cheiros e bares, que eu não tinha conhecido ano passado. Fiquei louca. Lock. Caps Lock.

IMG_4955

andando por lá, demos de cara com o trabalho do roa

numa loja de hq incrível em kreuzberg

numa loja de hq incrível em kreuzberg

comece o dia com um brunch delícia em cima do rio spree, na ankerklause: boa comida, boa vista, boa trilha sonora

No domingo, demos um rolé no Mauerpark, onde rola uma feirinha que mistura antiguidades, chepa, roupas brecholentas, biergarten, karaokê. Tem punk, tem criança, tem gente mais velha, casal, amigos… Interessante…

IMG_4584

Consegui também bookar a ida ao Sammlung Boros, um bunker que depois da guerra foi depósito de frutas tropicais (ganhando o apelido de banana bunker), depósito de têxteis, club eletrônico (com a fama de “the hardest club on earth“), abrigou festas sadomasô, foi fechado pelo governo e em 2008 anos foi comprado por um casal de galeristas que estruturaram o espaço para expor obras contemporâneas. O bacana é que eles mexeram o mínimo possível, então, você vê camadas e camadas de tintas, ferrugens nas portas e descascados nas paredes que têm 2 metros de profundidade. A visita é necessariamente guiada – em inglês ou alemão. A dica é: tem que bookar com antecedência, porque sempre lota. Ano passado deixei pra bookar no mês da viagem e não consegui.

IMG_4925

IMG_4910

IMG_4914

Voltei ao Me Collectors Room, que continua meu top 1 da cidade, com seu gabinete de curiosidades: uma reunião de 200 bizarrices lindas e delicadamente esculpidas, do Renascimento e do Barroco.

IMG_4780

IMG_4781

IMG_4805

instrumentos cirúrgicos. juro.

ali na caixinha forrada de vermelho, são instrumentos cirúrgicos. juro.

IMG_4813

essa é a minha preferida.

IMG_4842

esses meninos-bichos são de dar medo. parecem de verdade, parecem de pelúcia, parecem estar vivos, parecem estar mortos, parecem quentes...

esses meninos-bichos são de dar medo. parecem de verdade, parecem de pelúcia, parecem estar vivos, parecem estar mortos, parecem quentes…

Voltei também ao Hamburger Banhof e dessa vez consegui ver Warhol, Rauschenberg e Kiefer. Ano passado, essa área estava fechada. Estava rolando também uma expo temporária, Body Pressure, que incluía um vídeo da Marina Abramovic. ❤

IMG_4971

Knives, do Warhol... minha vida

knives, do warhol… minha vida

IMG_5027

panorâmica da sala warhol.

IMG_5017

detalhe de tela gigante e incrível do kiefer. chora.

IMG_5024

strip tease, rauschenberg

strip tease, rauschenberg

É essa mistura do ontem e do hoje – e que deixa a curiosidade sobre o amanhã (às vezes penso que a cidade pode virar muito turística e consequentemente pop em 10 anos, às vezes acho que não, porque é muito peculiar para se perder) – que torna Berlin curiosa, viva, enérgica.

Quero voltar. Logo.

O corpo nu revela o que tem dentro dele. O que mostramos é o que somos? Sem roupa, ficamos vulneráveis ao vento, ao frio, ao calor, ao toque. Ao chão gelado, à água da chuva, à chaleira fervendo, ao mármore. Ao outro. E a nós. Quando vejo alguém agir com naturalidade ao corpo nu do outro, fica clara pra mim a intimidade. A confiança de se deixar ver sem máscaras, sem nada, como veio ao mundo, como o mundo o transformou. Cada pedaço do corpo de alguém pode ser uma história, um caminho, um desalinho.

É esse mistério desnudado que me leva a achar interessante o projeto The Nu Project, que vem de encontro a algumas outras – poucas, digamos a verdade – campanhas e projetos que vemos falando sobre a real beleza. Isso tudo também tem a ver, de alguma maneira, com o sucesso/ polêmica da série Girls.

foto1

foto2

foto3

foto4

foto5

foto6

foto7

foto8

foto9

Photoshops à parte, perfeições – enquanto adjetivos – sendo reavaliadas, essências sendo discutidas, o projeto audacioso é no fundo muito “simples”.

Simples” (?) como ficar nu na frente de alguém.

foto 3

Andy Warhol sempre soube levantar  questionamentos ao polemizar em torno de aspectos comportamentais. Vídeos como os Screen Tests têm o poder de nos deixar desconfortáveis e ao mesmo tempo extremamente interessados em observar o outro. O espectador vira espelho? A lente da câmera vira o nosso olho? Olhar para dentro? Olhar para fora? Esse mesmo tipo de inquietação acontece na expo Lady Warhol, em cartaz no MAM SP, um projeto colaborativo entre o pai do pop e o fotógrafo Christopher Makos.

foto 4

A série, inspirada  em uma foto de 1921 em que Man Ray retratou Duchamp usando chapéu de mulher e vestido, apresenta Warhol com diferentes perucas e maquiagens recriando poses e olhares que ele estava acostumado a ver ao observar diversos tipos de pessoas: socialites, atrizes, damas da sociedade.  Em alguns momentos ele aparece apenas com um lençol envolvendo o torso, como uma mulher que acaba de acordar em sua casa. Em outros aparece com seu “look clássico”: calça jeans, camisa social branca, gravata quadriculada. Ficam ali uma enorme ambiguidade e uma forte mensagem sexual.

foto 1

Diferentes adereços podem nos fazer sermos outros, ainda que por instantes? Até que ponto o que está por fora muda o que está por dentro? O que a maquiagem e as poses revelam? E o que de fato queremos esconder ou revelar na hora de um retrato? Enfim, esses são alguns dos pensamentos que me ocorreram na hora. Pode ser que te ocorram outros totalmente diferentes. E é isso que mais me instiga na série, onde Cristopher parece captar um pouco da alma de Warhol e seu trabalho, de quem era profundo amigo e admirador.

foto 5

A expo fica em cartaz até dia 23/06.

Leia mais sobre Lady Warhol AQUI.

Hoje conheci o Achados Humanos, tumblr da  fotógrafa paulista Camila Svenson, que fotografa gente normal e interessante por aí. O bacana, além de perceber as expressões dos clicados e os diferentes traços, é que Camila coloca um textinho embaixo sobre a foto que tirou: um diálogo trocado ou uma impressão sobre o que captou seu olhar.

Captura de Tela 2013-03-03 às 12.53.46

Captura de Tela 2013-03-03 às 12.54.43

Captura de Tela 2013-03-03 às 12.54.00

Captura de Tela 2013-03-03 às 12.56.28

Captura de Tela 2013-03-03 às 12.57.15

Captura de Tela 2013-03-03 às 12.57.40

Captura de Tela 2013-03-03 às 12.58.47 Captura de Tela 2013-03-03 às 12.59.19

Captura de Tela 2013-03-03 às 12.59.05

Naquele momento pós-show, quando uma parte do público se dispersa, enquanto a outra ainda pede bis, o que será que se passa pelos backstages? Como será que o artista que há pouco era o centro das atenções se comporta? O livro The Moment After the Show retrata 100 artistas após suas apresentações. A ideia – do fotógrafo Matthias Willi e do jornalista Olivier Joliar – era captar a essência de cada um dos registrados.

eterno Iggy

eterno Iggy

Juliette Lewis

Juliette Lewis

Peaches

Peaches

Queens of the Stone Age

Queens of the Stone Age

Vive la Fête

Vive la Fête

Gnarls Barkley, a dupla formada por Danger Mouse e Cee-Lo Green

Gnarls Barkley, a dupla formada por Danger Mouse e Cee-Lo Green

O que sempre me impressiona nas fotos de anuários escolares é o olhar esperançoso, mas sem pistas. Acho que por conta do momento do clique, do enquadramento e do uniforme, nada da personalidade passa pela lente. Dificilmente a gente olha uma foto do colégio, dessas posadas mesmo e diz: “olha aqui, já dava para ver que essa aqui ia longe” ou “esse já era maluco desde criança“.

Não sei se você concorda comigo, mas olha essas fotos de músicos nos tempos do colégio e me diz se você já via no olhar deles o que eles se tornariam:

All the single ladies...

Debbie sem seu Heart of Glass

Eminem - Please stand up!

Fergie, ainda sem humps

Smells Like Teen Spirit

Marilyn Manson - ainda com cara de sweet dreams

Michael Stipe com cara de...Elvis Presley

Quem viu Iggy de gravata, nem imaginava que um dia ele dançaria sem blusa rolando pela carne moída num palco...

Like a Virgin

As ruas de SP são daquelas que fazem a gente entrar em conflito com o tempo e depois se arrepender de não ter aproveitado mais cada minuto ou ter ficado mais um (dois, três, quatro dias)… Mas, achei uma horinha rara entre reuniões para respirar e como por lá o que não falta é opção cultural, fui ao MASP.

Bom, expo no meio da semana é aquela coisa: alunos barulhentos com seus caderninhos em mãos, famílias em busca de novidades e muitos aproveitando a hora do almoço para sair um pouco de um ambiente de luz fria e paredes limitadoras. Acho divertida a confusão de interesses, o conflito de olhares e a harmonia que no final das contas existe, sempre, num ambiente de exposição.

Comecei pela expo Roma, com cerca de 200 artefatos, entre esculturas de deuses, sarcófagos, utensílios domésticos, móveis, armas e roupas de gladiadores e as sempre incríveis jóias. O que sempre me impressiona é o aproveitamento e deleite do tempo, que fica óbvio na construção dos detalhes, na delicadeza em transformar cada item do dia a dia único. A nossa pressa de hoje acabou com esse cuidado, a dedicação e deleite de cada trabalho, a busca da perfeição dos acabamentos, o embelezamento do entorno… se antigamente os recursos eram poucos e mesmo assim conseguia-se talhar folhas de ouro em torno de um pequeno brinco, por quê hoje não aproveitamos os recursos das ágeis ferramentas para deixar tudo ricamente trabalhado?

Deusa Ísis - acho sempre impressionante a capacidade de transformar o mármore em praticamente um cetim...

Não é demais?

Depois dessa visita a um ambiente onde a realidade sonhada era traduzida nos detalhes, um mergulho na subjetividade e na metafísica de De Chirico. As obras vieram da Fondazione Giorgio e Isa de Chirico, sediada em Roma, a mais importante instituição detentora dos trabalhos do artista.

Sole sul Cavalletto

A expo é dedicada ao “sentimento da arquitetura” e traz esculturas e pinturas de diferentes fases do artista, sendo a parte mais instigante as salas onde a mescla entre cidades e homens é exposta. Segundo de Chirico, a arquitetura e o imaginário visual são formas de entender a vida. 

Para fechar, as fotos da Coleção Pirelli 2012, com nomes como Pierre VergerGeraldo de Barros, Miguel Rio Branco e Mario Cravo Neto.

O abstrato nas imagens incríveis de Geraldo de Barros

E a realidade quente e áspera de Miguel Rio Branco

A respiração pausada e iluminada de Mario Cravo Neto

Sempre que converso com quem não tem tatuagem, ouço: “ah, mas imagina quando você estiver velha…”. E aí, lembro da amiga Mary Lima falando sabiamente: “quando eu estiver velha, todos os meus amigos velhinhos também tatuados nem pensarão nisso”. Bom, o fato é que o problema a meu ver não é o que vai acontecer com nosso corpo daqui a alguns bons anos, mas sim se o que carregaremos nele realmente contará uma história e fará sentido…

Para completar isso tudo, achei essas imagens inspiradoras para fazer a gente não pensar no amanhã:

Sabe quando o dia está pesado, você também, e aí você pensa: acho que tudo o que eu preciso é ver coisas bonitas? Bom, foi assim que me peguei na exposição do Robert Doisneau, no Centro Cultural Justiça Federal. Eu, que só conhecia uma foto dele, me peguei emocionada com tantos registros…

Essa era a única que eu conhecia

Bom, comece pelo doc, que dura cerca de 1 hora –  tem que ver para entrar em cada foto e automaticamente sentir tudo que ele fala. Segundo Doisneau, não é o fotógrafo que constrói a foto e sim, a vida, o dia a dia, o acaso. Ele relata momentos onde passou um dia em frente a uma praça ou escola, esperando as cenas acontecerem para registrá-las. O discurso é sedutoramente modesto e real, fruto de um olhar atraído pelas sensibilidades e alterações de cenários suburbanos, democráticos, inocentes e verdadeiros.

O mais interessante é que ele circulava por diferentes cenários e convivia com diferentes pessoas: de um homem conhecido por ter o corpo todo tatuado (que terminou condenado à morte) a Picasso. Mas, só era feliz com os balés da realidade e as histórias realmente verdadeiras. Me diverti na hora em que ele dizia o horror que tinha sido cobrir um desfile de moda. “Que gente cruel!” – ele dizia, para em seguida, rir e relatar que esperava as pessoas fazerem a cara mais feia para fotografá-las.

Bom, depois de tantas histórias simples e registros únicos, ganhei não só meu dia. Ganhei inspiração pra muitos anos…

%d blogueiros gostam disto: