“- Eu acho você puro sentimento.
– Sério? Eu acho que abraço pouco, falo pouco… fiquei pensando que não sei o que você quis dizer com isso…estranho.
– Acho que você age primeiro com o coração, é seu primeiro impulso. É isso.”

Tive esse diálogo há pouco tempo com um amigo de décadas. Somos brasileiros, latinos, povo acostumado a falar alto, a se meter na conversa da mesa do lado – e opinar – e a receber e dar beijos à lá vonté por aí nas bochechas (e bocas, acontece, né?) de quem mal sabemos o nome. Mas, quando você não é esse brasileiro típico, não é dado a tantas aberturas e extroversões de toques, se assusta com tantas mãos e muitas vezes julgamentos sobre não ser emocional. Para muitos, o afeto tem que ser físico o tempo todo, tem que ser sôfrego, tem que ser em excesso mesmo, tem que ser explícito, porn.  Senão…você é racional. Levanta a mão quem já ouviu isso! –  eu já ouvi muitas vezes e sendo 50% japa e 50% brasileira, logo arranjam uma justificativa no lado nipônico para a seriedade (confundida quase sempre com insensibilidade).

As maiores demonstrações de carinho que já tive foram nada excessivas, mas extremamente sensíveis. Um beijo no rosto enquanto eu estava deitada, sem perceber que a pessoa vinha. Um “<3” na timeline, no meio do dia, de surpresa. Um “trouxe pra você, porque achei a sua cara”. Um elogio no meio de uma frase cotidiana. Um “guardei um pedaço pra você”. Um whats app dizendo “tá melhor?”. Brilhos eternos de mentes com lembranças.

Mas, se eu tiver que escolher um gesto para externar afeto, escolho o universal, claro: o beijo. Fato que ele não precisa de legendas, se aplica a todas as relações e tem o efeito de elevar o humor e o amor. O Kiss Me Please Project fala disso e traz como protagonista Kanna, a filha do fotógrafo Nagano Toyokazu (olha aí, japa, tá vendo?) espalhando kisses por aí.

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O projeto traduz isso tudo: como o amor pode ser transmitido e compartilhado entre as pessoas, pelo mundo, de maneira simples. Sem excesso, mas com humor.

“Whether it is a fight between a couple, countries, and people, it is quite possible that everything can be solved with a simple kiss. With this in mind, my second daughter is expressing this idea by kissing different people and things. This project is to show that love can be spread and shared among people. We hope that it would bring peace to the world”, disse ele para o My Modern Met.

PS: Já falei de Toyokazu antes aqui, quando mostrei outras fotos amazing dele.

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A casa de vidro de Lilah Horwitz e Nick Olson

Desde que vi A Casa do Lago, eu sonho em morar em uma casa de vidro. Até já falei disso aqui. Mas, tudo de vidro? Sim! Tira o medo, tira tudo, deixa só o sonho. Não é lindo imaginar o tempo e a luz te acordando, naturalmente, por todos os ângulos? Imagino aquele ruído do silêncio, o cheiro da chuva e a vida em slow motion, acompanhada de uma xícara quente de chá.

Então, hoje, quando li a história do casal que largou tudo e realizou esse sonho… deixei por uns minutos o pensamento voar.

Voa comigo:

Sonhos transparentes e simples para começar a semana.

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o amor encontrado, desencontrado, velado, não falado, explícito mesmo assim

Um assunto que sempre me interessou foram as relações humanas, principalmente as amorosas. Adoro as histórias de amor, paixões, encontros e desencontros. Amores vividos, sofridos, sonhados, lindos, adolescentes, incubados. Filmes de amor costumam me emocionar e até me fazer chorar – quem me conhece, sabe que é coisa rara -, desde aquele bobo da sessão da tarde até outros ícones de love stories como Diários de uma Paixão.

o melhor beijo romântico: na chuva

diários de uma paixão e o melhor beijo romântico: na chuva

Estamos em 2013 e vejo muitos amigos que eram casados se separando, em busca de… ? Não se sabe o quê e nem sei se temos que saber justificar os términos, também. Acredito que somos uma geração de transição, onde em um núcleo familiar a mulher já conquistou seu espaço de trabalho, mas ainda lida com a herança dos anos 50 de ter que ser a mãe, a dona de casa, estar linda e impecável, enquanto tenta pelas próprias pernas descobrir o que realmente deseja (até onde é cômodo reproduzir formatos?); e onde o homem ainda leva nas costas a questão de ser o líder da família e provedor, enquanto quer de vez em quando, sim, que alguém resolva as coisas por ele.

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megan e draper, numa cena do mad men: a série que gira em torno de uma agência de publicidade também traz à tona essas mudanças todas entre anos 50 e 60.

Temos papéis novos, misturados, que construímos com os adventos da medicina, da tecnologia, dos novos desejos pessoais e profissionais e essas incríveis mudanças me fazem refletir por horas e horas…  Mas, fato é que a felicidade ainda é um sonho e meta comum e é ela que motiva essa busca – que ainda não sei se é real ou não. Será que estamos muito impacientes e irreais, mas teimando em acreditar nos famosos finais de filmes românticos? Ou será que estamos começando a entender, na prática, que felicidade é um estágio não permanente, assim como as relações? Daqui a uns 20 anos talvez a gente consiga olhar para trás e entender melhor os loucos anos 00.

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Sobre isso tudo fala O Livro do Amor, de Regina Navarro Lins, que fica agora na minha cabeceira. O volume 1 trata da Pré-História à Renascença, enquanto o 2 trata do Iluminismo até a atualidade. Leitura boa para quem pensa, sente e acha que no fundo, vale é viver o amor. Seja por 24 horas, seja pela vida inteira.

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Decidir o rumo de uma viagem pra Europa é sempre um dilema. É tudo perto e todo mundo quer opinar, te dando sugestões de onde ir. Quando você decide o destino, vem um diabinho e diz: “poxa, mas se você vai para X, por quê não vai também para Y, que é do lado?” Enfim, a história é desapegar. Não dá pra ver tudo… meu objetivo é curtir sem pressa, jamais me empolgo com a ideia de gincana maluca.

Então, depois desse pensamento, decidimos: Berlin, que mora já no coração, e Praga, cheia dos art nouveaus pra lá e pra cá. Sobre Praga, ouvi em uníssono: “Nossa, a cidade é lindíssima!”. Sim, Praga é linda e a maior atração, sem dúvida, são os prédios pela cidade, alguns indicando em que ano foram erguidos.

O Hotel Europa

O Hotel Europa

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Pirando nas portinhas

o lustre à la gatsby. cataploft.

O lustre à la gatsby. Cataploft.

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Sério que é tudo pintado assim? Sério.

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Ah… e é de 1897??? É.

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“Amiga, não é bizarro demais ficar fotografando toda porta que a gente encontra no caminho?”

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“É, “parcera”, mas como não fotografar? Vamos tentar então não virar a louca do instagram…”

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(Susto pra dentro, tipo soluço). Lindo.

Dos museus que fomos, o Museu de Artes Decorativas é O museu imperdível, assim como o do Mucha. No de Artes, uma área têxtil e gráfica admirável contam história através do tempo. No do Mucha, como bem esclareceu Bia, minha amiga designer e fiel companheira de viagem, você fica com queixo eternamente lá no chão quando percebe que o artista usava cores chapadas e conseguia criar  volumes apenas com traços. E eu sempre admiro a visão em saber  unir arte e trabalho comercial: dos pôsteres para divulgar balés de Sarah Benhardt (lindos, lindos!), passando pelas propagandas para Nestlé e Chandon, até as imagens das suas ninfas sedutoras envoltas em adornos e referências como o zodíaco, flores ou estrelas. Não tem fotos do Museu do Mucha, porque tudo em Praga tem que pagar para fotografar e, para arrependimento geral pós-pão durice, não pagamos…

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A parte gráfica é o ponto alto

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E essa caligrafia toda? Ai.

Fomos no Museu do Comunismo (passo) e também no bairro judaico, onde está o famoso cemitério . É impressionante e tristíssimo ver as tantas lápides caóticas… do tamanho de um campo de futebol, estima-se que lá estão mais de 100 mil pessoas enterradas em até 12 camadas.

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Dos locais clássicos, fomos no Café Savoy, a Colombo de lá. Lugar lindo, café bom e bom preço.

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No centro histórico, o mais bonito é o Orloj: o relógio astronômico medieval. Como define o wikipedia: “O Orloj é composto de três componentes principais: o mostrador astronômico, representando a posição do sol e da lua no céu, além de mostrar vários detalhes celestes; a ”Caminhada dos Apóstolos”, um show mecânico representado a cada troca de hora com as figuras dos apóstolos e outras esculturas com movimento; e um mostrador-calendário com medalhões representando o zodíaco.”

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Reza a lenda que ele foi criado em 1490 pelo mestre-relojoeiro Hanus e seu assistente Jakub Cech e que o mestre foi cegado para que não pudesse mais construir outro relógio parecido com esse. Ui.

O centro histórico você vê em no máximo duas horas, se não estiver a fim de subir para ver vista e coisas do gênero. Então, se você – assim como nós – não curte passeios a Igreja ou coisas muito muito turísticas, consegue ver tudo que tem de interessante em 3 dias tranquilos ou 2 dias no batidão. E acostume-se com a arte de andar olhando para cima sem tropeçar ou cair, porque as coisas mais bonitas de Praga estão no alto.

Viajar é encontrar com a gente mesmo. Voltei cheia de clichês-delícia, com a obviedade batendo na porta. Voltei feliz, cada vez mais certa de que o simples é o melhor de tudo.

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A viagem começou com a segunda ida a Berlin e, com ela, a certeza de que essa cidade é das que eu quero visitar sempre que puder. Refiz alguns programas, como a visita ao Pergamon, que faz meu queixo cair logo na entrada com o Altar de Pérgamo, o Market Gate of Miletus e as paredes da Babilônia, naquele azul que não achamos na cartela do dia a dia. Também fui de novo dar um oi para Nefertiti, embasbacante (não pode tirar foto, tente imaginar e aí, dobre a expectativa. É isso) e ver os pergaminhos, sarcófagos e pedaços de pirâmides e lindos hieróglifos no Neues.

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o market gate, de 2 AD, com 30m de largura e 16m de altura, é de impressionar.

imagina morar num lugar com um portal com desenhos assim? imagino o quanto era exótico se deparar com essas cores e desenhos tão diferentes...

imagina morar num lugar com um portal com desenhos assim? imagino o quanto era exótico se deparar com essas cores e desenhos tão diferentes…

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Andar por Berlin é incrível. Mesmo. A cidade está sempre em reconstrução e ao mesmo tempo que você tem esse lado histórico forte e preservado em museus, tem o contato com o lado contemporâneo nas galerias e com a street art a cada esquina. Tem prédio ainda da época da guerra, tem prédio com ares franceses, tem prédio imponente, tem prédio simples e tem outros que certamente são squats.

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cenário mais comum: posters colados e descolados nos muros e portas

cenário mais comum: posters colados e descolados nos muros e portas

sente quantos layers de posters. <3

sente quantos layers de posters. ❤

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O metrô funciona 24 horas e adoro os azulejos…

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Dessa vez, fui a Kreuberg, bairro boêmio, com uma mistura interessante de pessoas, cheiros e bares, que eu não tinha conhecido ano passado. Fiquei louca. Lock. Caps Lock.

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andando por lá, demos de cara com o trabalho do roa

numa loja de hq incrível em kreuzberg

numa loja de hq incrível em kreuzberg

comece o dia com um brunch delícia em cima do rio spree, na ankerklause: boa comida, boa vista, boa trilha sonora

No domingo, demos um rolé no Mauerpark, onde rola uma feirinha que mistura antiguidades, chepa, roupas brecholentas, biergarten, karaokê. Tem punk, tem criança, tem gente mais velha, casal, amigos… Interessante…

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Consegui também bookar a ida ao Sammlung Boros, um bunker que depois da guerra foi depósito de frutas tropicais (ganhando o apelido de banana bunker), depósito de têxteis, club eletrônico (com a fama de “the hardest club on earth“), abrigou festas sadomasô, foi fechado pelo governo e em 2008 anos foi comprado por um casal de galeristas que estruturaram o espaço para expor obras contemporâneas. O bacana é que eles mexeram o mínimo possível, então, você vê camadas e camadas de tintas, ferrugens nas portas e descascados nas paredes que têm 2 metros de profundidade. A visita é necessariamente guiada – em inglês ou alemão. A dica é: tem que bookar com antecedência, porque sempre lota. Ano passado deixei pra bookar no mês da viagem e não consegui.

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Voltei ao Me Collectors Room, que continua meu top 1 da cidade, com seu gabinete de curiosidades: uma reunião de 200 bizarrices lindas e delicadamente esculpidas, do Renascimento e do Barroco.

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instrumentos cirúrgicos. juro.

ali na caixinha forrada de vermelho, são instrumentos cirúrgicos. juro.

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essa é a minha preferida.

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esses meninos-bichos são de dar medo. parecem de verdade, parecem de pelúcia, parecem estar vivos, parecem estar mortos, parecem quentes...

esses meninos-bichos são de dar medo. parecem de verdade, parecem de pelúcia, parecem estar vivos, parecem estar mortos, parecem quentes…

Voltei também ao Hamburger Banhof e dessa vez consegui ver Warhol, Rauschenberg e Kiefer. Ano passado, essa área estava fechada. Estava rolando também uma expo temporária, Body Pressure, que incluía um vídeo da Marina Abramovic. ❤

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Knives, do Warhol... minha vida

knives, do warhol… minha vida

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panorâmica da sala warhol.

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detalhe de tela gigante e incrível do kiefer. chora.

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strip tease, rauschenberg

strip tease, rauschenberg

É essa mistura do ontem e do hoje – e que deixa a curiosidade sobre o amanhã (às vezes penso que a cidade pode virar muito turística e consequentemente pop em 10 anos, às vezes acho que não, porque é muito peculiar para se perder) – que torna Berlin curiosa, viva, enérgica.

Quero voltar. Logo.

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Quando subiram os letreiros de Antes da Meia Noite, meu amigo me perguntou: “gostou?” e eu respondi: “mais ou menos”. Mas, agora, duas horas depois, acho que a resposta seria dizer que fiquei mexida. Obviamente é mais fácil ver um filme 100% otimista e a minha expectativa era sair dele leve como saí depois do primeiro da trilogia (Antes do Amanhecer), onde o cenário todo é propício às ilusões e sonhos: impulso, viagem, primeiro encontro. Mas, se Antes da Meia Noite te traz para dentro de um longo relacionamento, com toda a realidade que a convivência impõe, ele também te traz a certeza de que o amor existe. Mas, aquele de verdade, não o dos filmes. Aquele onde a gente muda e, claro, o casal muda.

No filme, o casal protagonista Celine e Jesse já são pais de gêmeas e estão em uma viagem de férias para a Grécia. Como nos outros dois filmes, os diálogos dão a tônica de tudo, sendo o melhor deles um dividido entre amigos reunidos em volta de uma mesa mais do que convidativa (grande, com boa comida e linda vista), debatendo sobre amor, dando suas opiniões e impressões, interessantes, divergentes e sensíveis. Enquanto um casal jovem é admirado por estar no frescor das descobertas de um relacionamento, uma viúva fala lindamente do espaço ocupado pelo marido e das lembranças que têm. Nesse diálogo, Jesse e Celine contam como se conheceram e como Jesse usou os encontros (e desencontros) entre eles com inspiração para seus livros de sucesso.

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Before Midnight

Os dois ganham uma noite em hotel especialmente ofertada por dois dos amigos e nela tudo vem à tona: problemas, dilemas, rancores, dúvidas. São duas horas de uma DR intensa, daquelas que põem tudo – tudo – no macro e que me deixou com dor de cabeça, confesso.

Mas, para deixar todo mundo feliz, no final o amor fala mais alto. E é o que realmente conta. E sustenta.

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Anos 20: uma década que eu queria ter vivido. Só por conta desse desejo de entrar rapidinho na máquina do tempo, Great Gatsby já tinha meu lugar garantido no dia da estréia. Não li o livro e sei que este certamente é bem melhor que o filme, mas o novo longa, dirigido por Baz Luhrmann vale pelo figurino e por Leonardo DiCaprio, sempre incrível.

uhum, o vestido é todo bordado com pedras transparentes, em forma de gotas. cataploft.

uhum, o vestido é todo bordado com pedras transparentes, em forma de gotas. cataploft.

Bom, a história gira em torno do reencontro apaixonado entre Gatbsy, um milionário excêntrico e de rendas duvidosas, e Daisy, uma menina de família rica. As cenas kitsch e over, características de Baz, permeiam toda a trama, onde o que realmente é levantado é o valor das coisas: do dinheiro/poder, da moral, do amor.

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Uma das melhores cenas do filme é a festa no palácio art déco de Gatsby, que nos mostra, sem deixar dúvidas, a riqueza do personagem. No mesmo clima da festança de Romeu + Juliet, também dirigido por Baz (quem viu, sabe do que estou falando), o balacobaco é daqueles que a gente sonha e não conhece ninguém que já tenha ido: música, piscina, roupas e jóias de cair o queixo, bebidas, fogos de artifício  – tem tudo. Ostentação e diversão em forma de matéria. 

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MoetGatsby

Mas, a coisa que mais me impressionou foi o marketing todo envolvido no filme. Na cena acima, fica clara a parceria com a Moët Chandon, que aparece em todos os momentos, com imensas garrafas com rótulo da época. Tudo a ver. Para prolongar o efeito Gatsby, na semana seguinte, foram divulgadas receitas de drinks usando a Moet como “tema” principal. A marca, um ícone, tem valor histórico e verdadeiro agregado à época e, por conta disso não foi feito nenhum investimento financeiro por parte deles. Incrível.

Continuando as parcerias mais do que bem feitas e trabalhadas, como gringo sabe fazer para aparecer e vender (muito importante essa dobradinha), os vestidos de festa foram assinados pela Prada e os croquis foram liberados antes do filme, causando frisson nas amantes dos 20’s e nas fashionistas de plantão. Uma expo foi criada para expor 40 looks na flagship da marca, no Soho.

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Catherine Martin And Miuccia Prada Dress Gatsby Opening Cocktail

A Miu Miu – a outra marca de Miuccia Prada – assinou os figurinos complementares aos looks festa, como esse vestido-kimono maravilhoso, com estampa art déco.

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A tiara-ícone usada por Daisy  – assim como outras jóias – foi criada pela Tiffany&Co, que lançou uma coleção toda inspirada no filme, intitulada Jazz Age Glamour. O lançamento aconteceu junto à estréia do filme e as vitrines da loja da 5th Avenue foram temáticas, com VM especial criado junto a Baz. Ah, só para constar, a tiara custa U$200.000. Estima-se que a Tiffany tenha investido 10 milhões para estar no longa.

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Os looks de Leonardo DiCaprio também são daqueles que contribuem e muito para a aura de príncipe do personagem. Todos os figurinos masculinos foram assinados pela Brook Brothers, que criou cerca de 500 ternos vintages, smokings e chapéus-coco. É claro que as criações também ganharam as vitrines das lojas da grife, com a The Great Gatsby Collection.

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Pior foi lembrar agora que, para divulgarem o filme em SP, contrataram promoters para circularem pela Oscar Freire como casais, onde os homens estavam vestidos em ternos pobres acompanhados de mulheres com vestidos grosseiros de paetês, combinados a tiara do Saara/25, meia arrastão e saltos plataforma. Para os passantes associarem o desfile dos casais pela rua com o filme, as mulheres andavam segurando uma sacola de papelão preto com a imagem do poster do filme recortada e colada em ambos os lados.

Juro.

Chora.

O corpo nu revela o que tem dentro dele. O que mostramos é o que somos? Sem roupa, ficamos vulneráveis ao vento, ao frio, ao calor, ao toque. Ao chão gelado, à água da chuva, à chaleira fervendo, ao mármore. Ao outro. E a nós. Quando vejo alguém agir com naturalidade ao corpo nu do outro, fica clara pra mim a intimidade. A confiança de se deixar ver sem máscaras, sem nada, como veio ao mundo, como o mundo o transformou. Cada pedaço do corpo de alguém pode ser uma história, um caminho, um desalinho.

É esse mistério desnudado que me leva a achar interessante o projeto The Nu Project, que vem de encontro a algumas outras – poucas, digamos a verdade – campanhas e projetos que vemos falando sobre a real beleza. Isso tudo também tem a ver, de alguma maneira, com o sucesso/ polêmica da série Girls.

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Photoshops à parte, perfeições – enquanto adjetivos – sendo reavaliadas, essências sendo discutidas, o projeto audacioso é no fundo muito “simples”.

Simples” (?) como ficar nu na frente de alguém.

Tenho uma enorme queda pelo kitsch, pelo cru e pelo que dói o estômago. O que me incomoda me faz pensar. Me faz pensar se o que realmente me angustia é o que sinto/o que não sinto, o que me atrai/o que me repele, o que acho/o que nunca parei para pensar sobre. Esses questionamentos  fazem com que as coisas e momentos não me passem despercebidos. Essa sensação foi a que tive ao ver a expo Debret, de Vasco Araújo, em cartaz na Pinacoteca em SP.

O ponto de partida são os registros históricos de Debret, que viveu no Rio de Janeiro entre 1817 e 1831 e publicou três volumes da sua Viagem pitoresca e histórica ao Brasil. A partir dessas narrativas, Vasco levanta reflexões sobre cultura, comportamento e identidade no Brasil.

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O trabalho é composto por pequenos conjuntos de escultura recriando cenas inspiradas nos textos de Debret, onde aparecem os elementos: mesa de madeira, inscrições de fragmentos de textos do Padre António Vieira, ovos de madeira pintados (inspirados nos mecanismos dos Ovos Fabergé) e figurinhas de homens e mulheres retratando os diversos tipos e níveis de relações entre brancos e negros e brancos e índios no Brasil colonial.

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A expo fica na Pinacoteca até 25 de agosto e, segundo li nesse site, “o projeto Debret poderá ir ao Rio de Janeiro, no segundo semestre de 2013, para apresentação no Museu da Chácara do Céu, onde está exposto um importante conjunto de aquarelas de Jean-Baptiste Debret e que são os originais das gravuras em metal publicadas na Viagem Pitoresca. Deste modo, a intervenção de Vasco Araújo será, assim como na Pinacoteca do Estado, de grande pertinência à sua coleção e ao estudo deste período histórico do Brasil”.

Tomara.

Leia mais sobre a expo na Deli.

Já haviam me dito que uma vez que eu conhecesse museus fora do Brasil ia ficar passada. E feliz. E triste. E impressionada. Se o Malba já tinha me causado uma certa euforia, visitar outros lugares incríveis como Louvre, Pergamon e Victoria&Albert realmente me fez cair o queixo. Um misto de felicidade por estar perto daquilo tudo, dúvidas sobre o direito de se retirar (roubar?) obras de seus lugares de origem e, claro, uma sensação incrível de estar ali e poder entender a história (e eu mesma) um pouco mais de perto, com mais propriedade, com capacidade de entendimento que se eu fosse adolescente, não teria. Sentimentos à flor da pele, vontade de engolir todas aquelas referências seculares e um frio na boca do estômago, meio parecido com aquele que a gente sente quando está apaixonada e a nossa paixão vem andando na nossa direção. Não é exagero, foi isso que senti. Me apaixonei várias e várias e várias vezes nessa minha primeira viagem para a Europa, em novembro do ano passado.

Já a tristeza a que me refiro acima é a que bate quando cai a ficha de que estamos culturalmente muito, muito atrasados em terra brasilis. Sim, eu sei: somos um país novo, temos muito o que progredir, muitos dos nossos ainda são analfabetos (mais de 16 milhões), um dia chegamos lá. Enfim, juro que não sei mais se acredito que chegaremos nesse lá que eu espero enquanto eu estiver viva.

Bom, essa volta toda foi para dizer que a chegada da Casa Daros aqui no Rio me (re)acendeu uma pontinha de otimismo. O espaço é realmente incrível, desde a arquitetura em si – a casa de 1886, patrimônio histórico, foi reconstruída em um trabalho de 6 anos – , até a incrível e forte expo inaugural: Cantos Cuentos Colombianos.

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A mostra de arte contemporânea trata sobre pontos de vista sobre a Colômbia pelo olhar afiado de vários artistas. Em todas as obras, fica claro o teor político e social.

A sala mais comentada é a de Nadín Ospina, que ironicamente utiliza como referência as famosas cerâmicas colombianas ao recriá-las – pelas mãos de hábeis especialistas – como ícones populares e americanos, como Bart Simpson, Minnie e Pato Donald. Uma observação sobre a hibridização da cultura latino-americana.

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Um dos trabalhos que mais me tocou foi o de Doris Salcedo, onde sobreposições/junções de objetos e materiais representam violência, incapacidade de uso, deslocamento, angústia.

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Mexendo ao extremo com o sensorial, José Alejandro Restrepo usa em “Musa Paradisíaca” (nome botânico da banana), vídeo, música e bananas – de verdade – para falar dos contrastes entre natureza X opressão, como mostram as gravações sobre massacres ocorridos nas últimas décadas.

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María Fernanda Cardoso usa insetos de verdade – lagartixas, moscas, grilos – e nos repele e seduz ao mesmo tempo, ao transformá-los em ornamentos.

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Juan Manuel Echavarría desenha plantas exóticas e delicadas, que parecem extraídas de enciclopédias botânicas. Mas, as mesmas são… ossos humanos.

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A mostra foi apresentada inicialmente em Zurique, Suíça, em duas partes: a primeira, de outubro de 2004 a janeiro de 2005; e a segunda, de janeiro a abril de 2005, tendo sido a maior mostra de arte colombiana contemporânea já realizada na Europa. Não tem como passar imune.

Para visitar. E revisitar.

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